José Roberto da Silva
Jornalista e escritor
“A natureza leva todos os homens a ajudarem-se mutuamente para viverem felizes”, dizia Thomas Morus na imortal obra “A utopia” há 500 anos. E o espaço para a construção dessa felicidade é a cidade, obra coletiva tal como Lúcio Costa imaginou Brasília, sem muros, quase pairando no ar.
JK não criou Brasília para ser gigantesca maquete vazia e sim para as pessoas viverem nela suas alegrias e contingências humanas, como o transtorno mental. Apenas em 2001 (Lei da Reforma Psiquiátrica) institucionalizou-se em nosso País a noção humanista de que as pessoas com mal estar psíquico não podem mais ser segregadas em asilos/manicômios, de preferência bem longe de todos.
Não é doença nem infecção que se cure com antibiótico ou isolamento em quarentena. Ao contrário, a convivência familiar-social é parte da cura e/ou da estabilização psíquica que permite uma vida acolhida. A segregação e o isolamento, levados ao seu limite político, deságua no nazismo que assassinou milhões de judeus e também milhares de internos nos manicômios.
Todavia, Brasília ainda isola e discrimina os cidadãos que padecem transtornos mentais. Pela legislação de ordenamento territorial, anterior à Reforma, instituições que acolhem, dão suporte psicológico e médico, estão banidas por esquecimento da lei a se instalarem apenas nas áreas “hospitalares”. Lotadas, com aluguéis caríssimos, sem espaço para estacionamento, elas tornaram-se quase guetos sociais. Como revelou reportagem de Ana Paula Andreolla (JBr - 5 maio 2011), Brasília é o pior exemplo de descaso com a saúde mental no Brasil.
Exceção neste quadro de omissão é a clínica Anankê, pioneira na nova prática terapêutica. Criada há 20 anos, atende a cerca de 80 pacientes no modelo “hospital-dia” na 712/713 norte, área mista comercial-residencial. Não polui o ar, não vende álcool, não atormenta vizinhos. Mas o GDF impede-se de expedir-lhe alvará para que se trabalhe ao amparo da lei. Serraria, serralheria, lanternagem de carro e buteco pode, mas alienado mental não. Está em curso o debate para rever o PDOT: ótima oportunidade para acolher nossos filhos e filhas, parentes e amigos.
Fonte: Jornal de Brasília, em 12/06/11, página 2.
http://www.ananke.med.br/index.php?option=com_content&view=article&id=119&Itemid=69
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